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Depressão nos homens: os sinais que muitas vezes passam despercebidos

Irritabilidade, raiva, álcool, comportamentos de risco: em alguns homens, a depressão não se parece, à partida, com tristeza. O que mostram os estudos, os limites dos questionários habituais e como abordar o assunto.

FindYourNeurotype Team 4 novembro 2026 10 min de leitura

Em alguns homens, a depressão não se manifesta primeiro como tristeza. Pode surgir sob a forma de irritabilidade, raiva, consumo de álcool ou comportamentos de risco, sinais sobre os quais os questionários de depressão habituais perguntam pouco ou nada. Novembro é o mês do Movember, a campanha de saúde masculina da fundação com o mesmo nome, e 19 de novembro é o Dia Internacional do Homem.

  • O panorama: em França, 12,8 % dos homens tiveram um episódio depressivo em 2024, e mais de metade deles não recebeu qualquer acompanhamento.
  • Sinais menos conhecidos: irritabilidade, raiva, álcool, comportamentos de risco, isolamento, queixas físicas.
  • Os questionários: uma pontuação baixa no PHQ-9 não exclui uma depressão num homem que apresente estes sinais.
  • O que fazer: fale com o seu médico de família. Se tiver pensamentos suicidas, em Portugal pode ligar para a Linha Nacional de Prevenção do Suicídio, 1411, gratuita e disponível 24 horas por dia, ou, em perigo imediato, para o 112. No Brasil, o CVV atende pelo 188.

Menos depressão detetada, mais mortes por suicídio

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2023, 6,2 % das mulheres adultas e 4,1 % dos homens adultos viviam com depressão. Em França, o Barómetro 2024 da Santé publique France, a agência francesa de saúde pública (34 795 adultos dos 18 aos 79 anos), encontrou a mesma diferença: 18,2 % das mulheres e 12,8 % dos homens tiveram um episódio depressivo major no último ano.

Os homens com depressão também recebem menos cuidados. Nesse inquérito francês, 53,9 % deles não tinham consultado nenhum profissional, nem feito psicoterapia, nem tomado medicação, contra 37,9 % das mulheres. Mesmo durante um episódio grave, era o caso de 41,2 % dos homens. Nos Estados Unidos, em 2022, 41,6 % dos homens com uma doença mental receberam tratamento, contra 56,9 % das mulheres.

Já as mortes por suicídio envolvem sobretudo homens. Em França, os homens representaram quase 3 em cada 4 mortes por suicídio (8848 mortes em 2023). Entre 2011 e 2021, a taxa média francesa foi de 21,2 por 100 000 nos homens, contra 6,5 nas mulheres. Em Inglaterra e no País de Gales, foi de 17,5 contra 5,5 por 100 000 nas mortes registadas em 2025. No mundo, a taxa masculina é 2,2 vezes superior (dados de 2021).

O suicídio tem muitas causas, e estes números não provam, por si só, que a depressão masculina esteja subestimada. Mas este desfasamento levou investigadores a perguntar se estamos à procura dos sinais certos.

O que mostrou o estudo da JAMA Psychiatry de 2013

Três investigadores norte-americanos, Martin, Neighbors e Griffith, voltaram aos dados de um grande inquérito nacional, o National Comorbidity Survey Replication, realizado entre 2001 e 2003. A sua análise, publicada online a 28 de agosto de 2013, abrange 5692 adultos, dos quais 2382 homens.

Construíram duas escalas. A primeira conta apenas sintomas ditos "masculinos": irritabilidade, ataques de raiva ou agressividade, problemas de sono, abuso de álcool ou drogas, comportamentos de risco, hiperatividade, stress e perda de interesse. A segunda acrescenta sintomas clássicos, como o humor deprimido ou o cansaço.

  • Os homens referiam com mais frequência do que as mulheres ataques de raiva, abuso de substâncias e comportamentos de risco.
  • Com a escala "masculina", 26,3 % dos homens preenchiam os critérios, contra 21,9 % das mulheres.
  • Com a escala combinada, a diferença desaparecia: 30,6 % dos homens e 33,3 % das mulheres, uma diferença sem significado estatístico.

Estas percentagens não são taxas de depressão atual: a maioria das perguntas referia-se a toda a vida, outras aos últimos 30 dias. Trata-se de uma análise secundária, e os autores não propõem usar estas escalas tal como estão. O excesso de trabalho não pôde ser estudado, porque o número de casos teria sido demasiado pequeno.

Uma meta-análise de 2017 (32 estudos, 108 260 participantes) aponta no mesmo sentido: os homens deprimidos referiam mais vezes consumo problemático de álcool ou drogas e comportamentos de risco; as mulheres deprimidas, humor deprimido e alterações do apetite ou do sono. As diferenças eram pequenas a moderadas: são tendências, não duas doenças diferentes. Sobre a biologia da depressão, leia também Depressão e inflamação: o desvio da quinurenina.

Os sinais menos conhecidos

Vêm dos estudos acima e das orientações publicadas pelo Movember e pelo 3114, a linha nacional francesa de prevenção do suicídio. O que conta é a mudança em relação ao que é habitual nessa pessoa.

  • Irritabilidade e raiva: irritar-se por tudo e por nada. A própria OMS descreve o humor deprimido como sentir-se triste, irritável ou vazio.
  • Álcool ou drogas: beber ou consumir mais do que antes.
  • Comportamentos de risco: atitudes imprudentes ou impulsivas, fora do habitual.
  • Guardar tudo para si: deixar de falar do que sente, responder "estou bem" a tudo.
  • Queixas físicas: uma das seis dimensões da escala MDRS-22, descrita mais abaixo.
  • Isolamento: cancelar planos, faltar ao desporto, deixar de responder às mensagens.
  • Sono e stress: dormir mal, sentir-se sob pressão constante.

Isoladamente, nenhum destes sinais significa "depressão". O 3114 lembra que o que deve alertar é a acumulação de sinais ou uma mudança súbita. Só um profissional pode perceber o que se passa.

Uma escala foi concebida em torno destes sinais: a Male Depression Risk Scale (MDRS-22), publicada em 2013 por Simon Rice e colegas (Universidade de Melbourne). As suas 22 perguntas abrangem seis dimensões: supressão emocional, consumo de drogas, consumo de álcool, raiva e agressividade, sintomas físicos e comportamentos de risco. Testada depois com 1000 homens canadianos recrutados online, identificou 84,6 % dos que relatavam uma tentativa de suicídio recente, contra 53,8 % com o PHQ-9 (pontuação moderada ou superior). O resumo não indica quantos homens estavam em causa: é um sinal, não uma prova.

Porque é que o PHQ-9 pode não dar por isso

O PHQ-9 segue os nove critérios de depressão do DSM-IV: perda de interesse, humor deprimido, sono, cansaço, apetite, sentir-se mal consigo próprio, concentração, lentidão ou agitação, e pensamentos de morte. Foi validado em 2001 com 6000 doentes, na maioria mulheres, e refletia igualmente bem o estado de saúde dos homens. Mas nenhuma das suas perguntas incide sobre a raiva, o álcool ou os comportamentos de risco.

A CES-D tem os seus próprios enviesamentos: em 2340 pessoas idosas norte-americanas com o mesmo nível global de sintomas depressivos, as mulheres assinalavam mais vezes a pergunta sobre crises de choro.

Na prática, uma pontuação baixa não deve tranquilizar um homem que se reconhece em vários destes sinais. Estes questionários de autoavaliação ajudam a fazer o ponto da situação, mas não dão um diagnóstico. Se o esgotamento no trabalho for o principal problema, o nosso questionário sobre burnout (OLBI) mede outra coisa: a exaustão e o desinvestimento em relação ao trabalho.

Porque é que tantos homens não pedem ajuda

Um inquérito canadiano publicado em 2020 analisou 117 homens com sintomas de depressão moderada no PHQ-9: apenas 8,5 % eram acompanhados por um profissional. As principais barreiras tinham mais a ver com atitudes do que com obstáculos práticos: relutância em falar do humor com o médico, hábito de resolver os problemas sozinho e incerteza sobre o que implica uma psicoterapia. O Governo britânico fez uma constatação semelhante (os homens podem ter menos tendência para pedir ajuda) na sua estratégia de saúde masculina para Inglaterra, lançada a 19 de novembro de 2025.

No entanto, a depressão tem tratamento, seja ligeira, moderada ou grave, sublinha a OMS. O médico de família é um bom primeiro contacto. Descreva o que está a viver com palavras concretas: "irrito-me por tudo e por nada", "ando a beber mais", "há semanas que não durmo bem". O sono e o stress também contam: veja Tratar a insónia para aliviar a depressão e Stress crónico e o cérebro.

Como falar com um homem que o preocupa

O Movember recomenda o método ALEC, desenvolvido pela associação R U OK?:

  1. Perguntar (Ask): dizer o que notou, por exemplo: "Ultimamente não pareces tu, estás bem?". Muitas vezes as pessoas dizem "estou bem" quando não estão, por isso não hesite em perguntar uma segunda vez.
  2. Ouvir (Listen): sem julgar e sem tentar resolver tudo.
  3. Encorajar a agir (Encourage action): falar com pessoas de confiança e, se ele se sentir em baixo há mais de duas semanas, consultar o médico.
  4. Voltar a contactar (Check in): dar notícias depois da conversa.

O NHS, o serviço público de saúde britânico, aconselha perguntas abertas e lembra que não é preciso ter as respostas: ouvir e levar a sério já ajuda. O 3114 francês acrescenta: não desvalorizar ("vai correr tudo bem"), nunca prometer guardar segredo e lembrar-se de que é um amigo, não um terapeuta. Se estiver preocupado, pode perguntar diretamente: "Estás a pensar em suicídio?". Falar do assunto não faz surgir a ideia, sublinha o 3114. Uma meta-análise de 2022 não encontrou qualquer efeito nocivo em fazer a pergunta, embora os estudos envolvessem sobretudo questionários e entrevistas de investigação.

Se está a atravessar um momento difícil

Não está sozinho, e a depressão tem tratamento. Em Portugal, a Linha Nacional de Prevenção do Suicídio (1411), integrada no SNS 24, funciona 24 horas por dia, todos os dias do ano, é gratuita e confidencial. A Linha SNS 24 (808 24 24 24), também disponível 24 horas por dia, oferece aconselhamento psicológico com psicólogos clínicos. Em caso de perigo imediato, ligue 112. No Brasil, o CVV atende pelo 188, 24 horas por dia e sem custo de ligação. Noutros países, contacte o número de emergência local.

Perguntas frequentes

A depressão é mesmo menos frequente nos homens?

Segundo as estimativas da OMS, afeta 4,1 % dos homens adultos, contra 6,2 % das mulheres adultas. Mas, no estudo de 2013, a diferença desaparecia quando se contavam também a raiva, o álcool e os comportamentos de risco. A questão não está resolvida.

Uma pontuação baixa no PHQ-9 quer dizer que está tudo bem?

Não necessariamente: o PHQ-9 não pergunta nada sobre a raiva, o álcool ou os comportamentos de risco. Se se reconhece nestes sinais, fale com o seu médico.

E se ele se recusar a falar?

Mantenha o contacto e volte a perguntar mais tarde. Também pode procurar apoio para si próprio, por exemplo no aconselhamento psicológico da Linha SNS 24 (808 24 24 24). Se ele falar em querer morrer e recear um perigo imediato, ligue 112.

Referências: Martin LA, Neighbors HW, Griffith DM (2013). The Experience of Symptoms of Depression in Men vs Women: Analysis of the National Comorbidity Survey Replication. JAMA Psychiatry 70(10):1100-1106, publicado online a 28 de agosto de 2013. doi:10.1001/jamapsychiatry.2013.1985 (análise secundária do NCS-R, 2001-2003, 5692 adultos, dos quais 2382 homens) | Cavanagh A, Wilson CJ, Kavanagh DJ, Caputi P (2017). Differences in the Expression of Symptoms in Men Versus Women with Depression: A Systematic Review and Meta-analysis. Harvard Review of Psychiatry 25(1):29-38. doi:10.1097/HRP.0000000000000128 (revisão sistemática e meta-análise, 32 estudos, 108 260 participantes) | Rice SM, Fallon BJ, Aucote HM, Möller-Leimkühler AM (2013). Development and preliminary validation of the male depression risk scale: furthering the assessment of depression in men. Journal of Affective Disorders 151(3):950-958. doi:10.1016/j.jad.2013.08.013 (amostras comunitárias online, sem entrevista diagnóstica: 386 homens, depois 499 homens e 291 mulheres) | Rice SM, Ogrodniczuk JS, Kealy D, Seidler ZE, Dhillon HM, Oliffe JL (2019). Validity of the Male Depression Risk Scale in a representative Canadian sample: sensitivity and specificity in identifying men with recent suicide attempt. Journal of Mental Health 28(2):132-140. doi:10.1080/09638237.2017.1417565 (amostra online de 1000 homens canadianos) | Rice SM, Oliffe JL, Kealy D, Seidler ZE, Ogrodniczuk JS (2020). Men's Help-Seeking for Depression: Attitudinal and Structural Barriers in Symptomatic Men. Journal of Primary Care & Community Health 11:2150132720921686. doi:10.1177/2150132720921686 (inquérito transversal online, 117 homens) | Kroenke K, Spitzer RL, Williams JB (2001). The PHQ-9: validity of a brief depression severity measure. Journal of General Internal Medicine 16(9):606-613. doi:10.1046/j.1525-1497.2001.016009606.x (6000 doentes de cuidados de saúde primários e de ginecologia-obstetrícia, 580 reavaliados em entrevista) | Cole SR, Kawachi I, Maller SJ, Berkman LF (2000). Test of item-response bias in the CES-D scale: experience from the New Haven EPESE study. Journal of Clinical Epidemiology 53(3):285-289. doi:10.1016/S0895-4356(99)00151-1 (2340 pessoas idosas) | Polihronis C, Cloutier P, Kaur J, Skinner R, Cappelli M (2022). What's the harm in asking? A systematic review and meta-analysis on the risks of asking about suicide-related behaviors and self-harm with quality appraisal. Archives of Suicide Research 26(2):325-347. doi:10.1080/13811118.2020.1793857 (17 estudos avaliados, 8 em meta-análise) | Leon C, Perrin L, Gillaizeau I, Papadopoulos A (2025). Épisodes dépressifs : prévalence et recours aux soins. Baromètre de Santé publique France, résultats de l'édition 2024 (em francês). Santé publique France | Santé publique France: Suicides et tentatives de suicide, données (em francês, atualizado a 5 de janeiro de 2026) | Hazo JB, Aubain L, Cadillac M (2026). Le suicide, trois fois plus fréquent chez les hommes, deux fois plus chez les plus modestes (em francês). DREES, Études et résultats n.º 1364 | ONS: Suicides in England and Wales: 1981 to 2025 (13 de outubro de 2026) | OMS: Depressive disorder (depression) | OMS: Suicide worldwide in 2021: global health estimates (2025) | NIMH: Mental Illness (dados NSDUH 2022) | Department of Health and Social Care: Government unveils England's first ever Men's Health Strategy (novembro de 2025) | Movember: Spot the signs e FAQ (em inglês) | NHS: Help for suicidal thoughts (em inglês) | 3114: Comment reconnaître les signes de détresse e Que dire ? Quoi faire ? (em francês) | SNS 24: Linha Nacional de Prevenção do Suicídio, Sobre nós e Quando ligar SNS 24 ou INEM | CVV: Centro de Valorização da Vida

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