Toda a gente tem uma opiniao sobre porque tantas pessoas recebem um diagnostico de TDAH ou autismo. Os ecras. A alimentacao. A escola. O TikTok. "No meu tempo isso nao existia." O que quase ninguem tem sao dados capazes de separar as explicacoes. Um estudo publicado na JAMA Psychiatry em junho de 2026 tem alguns, e vem de um sitio inesperado: o ADN das pessoas diagnosticadas.
O que os investigadores fizeram
A Dinamarca guarda uma gota de sangue de quase todos os recem-nascidos, e os registos nacionais anotam cada diagnostico. O projeto iPSYCH liga as duas coisas. Sonja LaBianca, Andrew Schork e os colegas da Universidade de Copenhaga usaram-no para estudar 37 000 pessoas: cerca de 17 000 diagnosticadas com autismo e 20 000 com TDAH, todas nascidas entre 1981 e 2008 e diagnosticadas entre 1994 e 2016.
Para cada uma calcularam uma pontuacao poligenica: a soma de milhares de pequenas variantes geneticas que, juntas, empurram as probabilidades de TDAH ou autismo para cima ou para baixo. Nenhuma variante conta sozinha. O total e um indicador aproximado da predisposicao herdada. Depois fizeram uma pergunta simples: a pontuacao media das pessoas diagnosticadas depende do ano do diagnostico?
O que encontraram
No periodo, as taxas de diagnostico mais do que quadruplicaram. Na Dinamarca, cerca de 0,1 % da populacao tinha um diagnostico de TDAH em 2000; em 2022 eram mais de 3 %. E a medida que os numeros subiam, a carga genetica media dos novos diagnosticados descia: cerca de 10 a 15 % no TDAH, ate 25 % no autismo, a volta de 20 % em media. "Encontramos um declinio claro ao longo do tempo, tanto no TDAH como no autismo", disse LaBianca.
O perfil genetico em si nao mudou. As mesmas variantes contavam em 1996 e em 2016. O que mudou foi quanta predisposicao uma pessoa precisava de carregar, em media, para acabar com um diagnostico.
O que significa: a fasquia moveu-se
Pensa numa altura minima. Se "alto" significa mais de 1,90 m, poucos passam, e todos sao muito altos. Baixa a fasquia para 1,80 m e passam muitos mais, e a altura media do grupo "alto" desce, embora ninguem tenha encolhido e a biologia da altura nao tenha mudado. E esse o padrao nos dados. Schork chama-lhe um "limiar diagnostico em deslocacao".
Se algo no ambiente estivesse a criar casos novos do nada, ecras, dieta ou outra coisa, nao se esperaria esta assinatura. A leitura mais simples e que o diagnostico chega agora a pessoas que antes lhe escapavam: raparigas e mulheres, adultos, pessoas sem deficiencia intelectual, pessoas cujas dificuldades sao reais mas menos visiveis. Falamos desse grupo em o diagnostico tardio nas mulheres e em os sinais do TDAH na mulher. Os proprios investigadores enumeram os motores provaveis: manuais de diagnostico revistos, menos estigma, mais procura de ajuda e a chegada do tratamento do TDAH no adulto.
O que nao significa
Nao significa que os diagnosticos recentes sejam falsos. LaBianca e explicita: "Os nossos resultados nao invalidam o diagnostico de TDAH ou autismo das pessoas. Mostram que a pratica clinica, os manuais de diagnostico e a compreensao social destes diagnosticos se tornaram mais amplos com o tempo." Um diagnostico faz-se com base em sintomas e impacto funcional, nao no ADN, e uma pessoa com pontuacao poligenica media pode ter tantas dificuldades como outra com pontuacao alta.
Tambem nao prova sobrediagnostico. Uma fasquia mais baixa pode significar que se inclui demais, ou que a fasquia antiga era demasiado alta e deixou pessoas sem ajuda durante decadas. A genetica nao consegue distinguir; so a evolucao das pessoas consegue. E as pontuacoes poligenicas captam uma pequena parte do risco herdado. Os estudos de gemeos situam a hereditariedade do TDAH a volta de 0,76, como explicamos em os genes do TDAH para la da dopamina, enquanto as pontuacoes atuais explicam poucos pontos.
Tres limites a ter em mente. Os dados acabam em 2016, antes da vaga de diagnosticos em adultos apos a pandemia. Vem de um so pais, com um so sistema de saude. E os participantes sao esmagadoramente de ascendencia europeia.
Se te perguntas isso sobre ti
A mensagem pratica e tranquilizadora. O TDAH e o autismo nao surgiram do nada; sempre existiram. O que mudou foi quem e detetado. Se te reconheces nas descricoes e nunca foste avaliado, es exatamente o tipo de pessoa que a fasquia antiga, mais alta, deixava passar.
Um questionario validado e um primeiro passo sensato. O ASRS-v1.1 para TDAH e o AQ-10 para autismo demoram poucos minutos, sao gratuitos aqui, e dao-te uma pontuacao para levar a um profissional. Se ambos parecem encaixar, tambem e frequente: ve quando autismo e TDAH se sobrepoem.
Fonte: LaBianca S, Schork AJ, et al. Changes in genetic contributions to ASD and ADHD by year of diagnosis. JAMA Psychiatry, 10 de junho de 2026. DOI 10.1001/jamapsychiatry.2026.1450. Os numeros e as citacoes vem do artigo e dos comunicados da Universidade de Copenhaga e da Fundacao Lundbeck; as explicacoes em linguagem simples sao nossas. Este artigo e educativo e nao constitui um diagnostico.