Em muitas mulheres com PHDA, os sintomas não são iguais de uma semana para a outra. Vários estudos encontram-nos mais marcados em torno da menstruação. O papel do estrogénio é uma pista séria, mas continua a ser, em parte, uma hipótese.
- O que foi observado: em estudos pequenos com registo diário, os sintomas variam ao longo do ciclo, muitas vezes com um pico durante a menstruação ou imediatamente antes.
- O que se supõe: a descida do estrogénio atuaria sobre a dopamina, uma ideia que assenta sobretudo em investigação em animais.
- Gravidez e menopausa: os dados são escassos e por vezes contraditórios.
- Na prática: registe os seus sintomas a par do seu ciclo e mostre esse registo ao seu médico.
O ciclo menstrual em poucas palavras
Um ciclo começa no primeiro dia da menstruação. Na fase folicular, o estrogénio sobe até à ovulação. Segue-se a fase lútea: a progesterona aumenta e depois ambas as hormonas descem nos dias que antecedem a menstruação seguinte. Uma teoria publicada em 2024 põe a tónica nos momentos em que o estrogénio desce depressa: em torno da ovulação e em torno da menstruação.
O que mostram os estudos sobre o ciclo
Kentucky, 2018. A Universidade do Kentucky acompanhou 32 mulheres jovens com ciclos regulares, recrutadas na população geral. Durante 35 dias, davam todas as manhãs uma amostra de saliva para medir as hormonas e preenchiam todas as noites uma lista de sintomas de PHDA. Quando o estradiol (o principal estrogénio) descia enquanto a progesterona ou a testosterona subiam, os sintomas eram mais elevados no dia seguinte, sobretudo nas mais impulsivas. Destacavam-se dois momentos: o início da menstruação e o período logo a seguir à ovulação.
Nova Iorque, 2025. Segundo um estudo-piloto publicado online a 26 de dezembro de 2025 no Journal of Attention Disorders, 30 mulheres tratadas para a PHDA com sais de anfetamina preencheram 35 questionários diários. Os sintomas eram mais fortes durante a menstruação e mais ligeiros logo a seguir (a meio da fase folicular). Quanto mais o humor piorava, mais aumentavam. Segundo o relato do PsyPost, a desatenção, por si só, não variou de forma significativa, a hiperatividade-impulsividade mostrou apenas uma tendência e as doses de medicação mantiveram-se estáveis. Limitações: amostra pequena, dados autorrelatados, fases estimadas a partir do fluxo menstrual, sem medição hormonal.
Resultados nem sempre concordantes. Em janeiro de 2025, a Scientific American descreveu o acompanhamento de 97 estudantes universitárias, quase todas com diagnóstico de PHDA, pela equipa da psicóloga Michelle Martel (Kentucky): sintomas mais marcados imediatamente antes e no início da menstruação, e um pouco também em torno da ovulação. Estes resultados tinham sido apresentados num congresso; a 3 de novembro de 2026, não encontrámos nenhum artigo revisto por pares que os publique tal como foram apresentados. Em agosto de 2025, a mesma equipa publicou uma análise de 103 mulheres dos 18 aos 25 anos acompanhadas durante um mês (não sabemos se eram as mesmas participantes): as variações dependiam do nível de impulsividade, o meio da fase lútea parecia ter antes um efeito protetor sobre a desatenção e o período após a ovulação estava associado a mais hiperatividade.
O que as mulheres relatam. Num inquérito online da Universidade Monash (Austrália) a 600 mulheres com diagnóstico de PHDA, 88,6 % das que ainda tinham ciclos e não faziam tratamento hormonal disseram que os sintomas mudavam ao longo do ciclo, na maioria das vezes para pior na fase lútea. Dois estudos suecos baseados em entrevistas (10 e 14 mulheres) apontam no mesmo sentido: sintomas mais fortes na fase lútea e a semana antes da menstruação vivida como a mais difícil. Estes relatos não provam uma causa.
As revisões. Uma revisão sistemática de 2025 incluiu apenas 11 estudos, muitas vezes pequenos e heterogéneos. Uma revisão exploratória (scoping review) publicada em junho de 2026 encontrou 20. Em ambas, os dados sugerem uma ligação entre hormonas e sintomas, mas continuam a ser preliminares.
Estrogénio e dopamina: comprovado ou suposto?
A dopamina, um mensageiro químico do cérebro, é muito estudada na PHDA. Em animais, o estrogénio estimula a produção de dopamina e trava a sua recaptação e degradação. Na mulher, estudos de imagem cerebral sugerem que o estradiol reforça os circuitos dopaminérgicos que ligam o córtex pré-frontal ao estriado, regiões essenciais para a atenção. O efeito não seria linear: haveria uma zona ótima, nem demasiado baixa nem demasiado alta.
Mas os estudos sobre o ciclo em mulheres com PHDA não mediram diretamente a dopamina, lembra uma revisão de 2025. O mecanismo continua, portanto, a ser uma hipótese plausível, não um facto demonstrado. Outra pista envolve a alopregnanolona, um derivado da progesterona ao qual algumas mulheres poderão ser mais sensíveis. E a PHDA não se resume a "pouca dopamina", como explica o nosso artigo sobre este mito.
PHDA e perturbação disfórica pré-menstrual
A perturbação disfórica pré-menstrual (PDPM) é uma forma grave de síndrome pré-menstrual: humor muito em baixo, irritabilidade ou ansiedade nos dias que antecedem a menstruação. Num inquérito de investigadores britânicos publicado em junho de 2025, com 715 mulheres dos 18 aos 34 anos, uma PDPM provável afetava 31,4 % das que declaravam um diagnóstico de PHDA e 41,1 % das que tinham sintomas de PHDA elevados, contra 9,8 % do grupo sem PHDA. O risco era maior quando havia também depressão ou ansiedade. São casos "prováveis", identificados por questionário, não diagnósticos confirmados.
Nos registos suecos (mais de 3,6 milhões de mulheres), a ligação surge nos dois sentidos: as mulheres com uma perturbação pré-menstrual tinham com mais frequência um diagnóstico prévio de PHDA, e também recebiam com mais frequência um diagnóstico de PHDA mais tarde. Uma associação não diz qual causa qual.
Gravidez, pós-parto, menopausa: dados ainda escassos
Gravidez. A revisão sistemática de 2025 encontrou apenas um estudo sobre os sintomas de PHDA durante a gravidez, com 25 participantes. Não é possível tirar daí uma regra.
Depois do parto. No inquérito da Universidade Monash, 70,4 % das inquiridas a quem a pergunta se aplicava disseram ter notado um agravamento depois de um parto. São recordações, não medições.
Perimenopausa e menopausa. O estrogénio oscila e depois desce de forma duradoura. A revisão de 2025 não encontrou nenhum estudo sobre a PHDA na menopausa. Desde então, os resultados divergem:
- na Islândia, em 5392 mulheres, 54,2 % das que declaravam PHDA tinham sintomas de perimenopausa graves, contra 30,1 % das restantes, sendo a diferença de pontuação mais marcada entre os 35 e os 39 anos. O critério estudado foi a intensidade dos sintomas de perimenopausa, não a evolução dos sintomas da PHDA;
- no Reino Unido, em 656 mulheres dos 45 aos 60 anos, o diagnóstico de PHDA não estava associado a mais queixas da menopausa após correção para comparações múltiplas, embora, no conjunto das participantes, sintomas de PHDA mais elevados andassem a par de mais queixas;
- no inquérito da Universidade Monash, 97,5 % das inquiridas a quem a pergunta se aplicava disseram ter notado um agravamento na menopausa, mas as pontuações atuais na escala ASRS eram semelhantes em todas as fases da vida.
O "nevoeiro mental" da menopausa parece-se muito com a desatenção da PHDA, o que torna difícil distinguir os dois. Por fim, segundo uma revisão de 2026, não existe nenhum ensaio clínico aleatorizado e controlado sobre os tratamentos da PHDA em mulheres na perimenopausa ou na pós-menopausa.
Na prática: registar os sintomas a par do ciclo
Um registo simples ajudá-la-á a ver com mais clareza.
- Todas as noites, anote o dia do ciclo (dia 1 = primeiro dia da menstruação) e uma nota de 0 a 3 para a concentração, a organização, a impulsividade, o humor e o sono.
- Mantenha o registo durante dois ou três ciclos. Um só ciclo pode enganar.
- Acrescente o contexto: contraceção, stress, doença, toma do seu tratamento tal como foi prescrito.
- Leve-o à consulta (médico de família, psiquiatra, ginecologista ou enfermeira obstetra). Ajuda a identificar uma eventual PDPM ou uma depressão.
Algumas equipas estudam o ajuste do tratamento ao ciclo, mas os dados limitam-se a uma única e pequena série de 9 casos. Não é uma recomendação: nunca altere o seu tratamento por iniciativa própria, fale com o seu médico. Se o seu humor ficar muito sombrio antes da menstruação, ou se tiver pensamentos de suicídio, não espere: em Portugal, pode ligar para a Linha de Prevenção do Suicídio, 1411, ou para o SNS 24, 808 24 24 24 (opção 4, aconselhamento psicológico disponível 24 horas por dia); em caso de perigo imediato, ligue 112. No Brasil, o CVV atende pelo 188, 24 horas por dia e sem custo. Noutros países, ligue para o número de emergência local.
O questionário de autoavaliação ASRS demora poucos minutos. Não faz um diagnóstico. Como os sintomas podem variar, anote em que fase do ciclo o preenche. Para perceber porque é que a PHDA passa muitas vezes despercebida nas mulheres, leia o nosso artigo sobre o diagnóstico tardio e os sinais da PHDA nas mulheres.
Perguntas frequentes
A PHDA piora durante a menstruação?
Numa parte das mulheres, segundo vários estudos pequenos: os sintomas são muitas vezes mais marcados durante a menstruação ou imediatamente antes. Mas o padrão varia, e alguns estudos encontram também um aumento depois da ovulação.
O estrogénio estimula a dopamina?
Isso foi demonstrado em animais e é sugerido pela imagem cerebral na mulher. Na PHDA, a ligação entre a descida do estrogénio, a dopamina e os sintomas continua a ser uma hipótese.
Deve o tratamento ser ajustado ao ciclo?
Nenhum protocolo foi validado por ensaios controlados. Se notar um padrão regular, fale com o seu médico. Nunca altere as doses por si.
A menopausa agrava a PHDA?
Muitas mulheres relatam que sim, mas os estudos são poucos e divergem, e os sintomas das duas sobrepõem-se.
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