Uma publicacao no Facebook que afirma que criancas autistas que tomaram L-carnitina mostraram melhorias na gravidade dos sintomas, comportamento social, comunicacao, atencao e funcao cognitiva esta a circular amplamente - e ao contrario de algumas alegacoes sobre suplementos que ja verificamos antes, esta tem evidencia real de ensaios clinicos por tras. Aqui esta o que a investigacao realmente mostra, e porque isso nao significa que a L-carnitina funcione da mesma forma para cada pessoa autista.
O que a investigacao realmente mostra
A L-carnitina e um composto natural que o corpo usa para transportar acidos gordos para as mitocondrias, a fim de produzir energia. Um ensaio aleatorizado, duplamente cego, controlado com placebo, publicado na Medical Science Monitor, deu a 30 criancas autistas L-carnitina liquida (50 mg por quilo de peso corporal por dia) ou um placebo durante tres meses. O grupo tratado mostrou melhorias estatisticamente significativas na escala CARS (Childhood Autism Rating Scale), na escala de impressao clinica global, e no questionario ATEC preenchido pelos pais. Outro estudo, usando uma dose mais elevada (100 mg/kg/dia) durante seis meses, tambem relatou uma melhoria significativa. Sao resultados reais, controlados e revistos por pares - nao anedotas.
Porque nao funciona da mesma forma para todos
Os ensaios tambem descobriram que a dimensao da melhoria clinica se correlacionava com o quanto os niveis sanguineos de carnitina da crianca realmente subiam - quem comecava com mais defice, e cujos niveis subiam mais, tendia a melhorar mais. Isto encaixa num padrao mais amplo que os investigadores encontraram: estima-se que 20 por cento ou menos das pessoas autistas apresentem alguma forma de metabolismo alterado da carnitina. Parte disto remonta a um gene especifico, o TMLHE, envolvido na producao de carnitina pelo corpo; um defice deste gene aparece em cerca de 1 em cada 350 rapazes autistas nao dismorficos. Mas a mesma investigacao descobriu que apenas cerca de 3 por cento dos rapazes com defice de TMLHE chegam a desenvolver autismo, o que significa que e um fator de risco que interage com outras coisas, nao uma causa unica. Em resumo: a suplementacao com carnitina parece realmente util para um subgrupo com uma diferenca metabolica subjacente, nao como tratamento geral do autismo em si.
Seguranca e cautela pratica
Nos ensaios publicados, a L-carnitina foi geralmente bem tolerada, sendo o desconforto digestivo ligeiro o problema mais relatado em doses elevadas. Dito isto, as doses estudadas foram calculadas de acordo com o peso corporal das criancas, sob supervisao medica e laboratorial, por vezes com analises sanguineas de carnitina antes e durante o tratamento. Esta nao e o tipo de decisao de suplementacao a tomar a partir de uma publicacao no Facebook: dosear uma crianca conforme o peso, sem saber se ela tem realmente uma diferenca metabolica relacionada com a carnitina, nao e o que a investigacao apoia.
O que fazer se tens curiosidade
Se queres explorar isto para o teu filho ou filha, o proximo passo correto e falar com um pediatra ou geneticista, que pode avaliar se faz sentido um estudo metabolico ou genetico antes de considerar a suplementacao. Para saber mais sobre a genetica estudada no autismo, ve o nosso artigo sobre os genes do autismo e as vias cerebrais, e o nosso rastreio gratuito de Autismo AQ-10 e um ponto de partida para compreender tracos, nao um substituto de um estudo metabolico.
Fontes: Geier et al., "A prospective double-blind, randomized clinical trial of levocarnitine to treat autism spectrum disorders," Medical Science Monitor (2011); Malaguarnera e Cauli, "Effects of L-Carnitine in Patients with Autism Spectrum Disorders: Review of Clinical Studies," Molecules (2019); investigacao sobre o defice do gene TMLHE e o risco de autismo. Resumo educativo - nao e diagnostico nem aconselhamento medico.