Desde o início de 2026, um título volta constantemente às redes sociais: «Cientistas descobrem 3 tipos de PHDA». Foi retomado pela National Geographic, por rádios públicas norte-americanas, por sites de saúde e por uma enxurrada de publicações e vídeos curtos, muitas vezes com uma imagem colorida de um cérebro e a ideia de que um exame já consegue dizer de que tipo é. Por trás está um estudo real e cuidadoso. Mas as publicações costumam deixar de fora o mais importante: quem foi examinado, o que é realmente um «biótipo» e o que o estudo não testou.
O estudo
O artigo foi publicado online a 25 de fevereiro de 2026 na JAMA Psychiatry por Nanfang Pan, Qiyong Gong, Ying Chen e colegas do Hospital da China Ocidental da Universidade de Sichuan, em colaboração com a Universidade Monash, na Austrália, e com a Universidade de Cincinnati e a Universidade da Califórnia em Davis, nos Estados Unidos. A equipa reuniu ressonâncias magnéticas cerebrais de seis centros de investigação nos Estados Unidos e na China (446 crianças com PHDA e 708 sem PHDA) e depois confirmou os resultados num grupo norte-americano independente, o Healthy Brain Network (554 crianças com PHDA e 123 sem).
No total são 1831 exames, o número citado em muitas publicações. Há dois pontos raramente referidos: apenas 1000 desses exames eram de jovens com PHDA, e todos os participantes eram crianças ou adolescentes, com idades entre cerca de 6 e 18 anos. Não foi incluído nenhum adulto.
O que é um «biótipo»?
Um biótipo é um subgrupo definido a partir de medidas biológicas e não a partir dos sintomas. Aqui, os investigadores usaram ressonâncias estruturais comuns para estimar até que ponto cada região do cérebro se parece com as outras na sua anatomia, construindo aquilo a que se chama uma rede de semelhança morfométrica. Depois compararam cada criança com «curvas de crescimento» obtidas a partir das crianças sem PHDA (um método chamado modelação normativa), para ver onde cada cérebro se afastava do que é habitual para a sua idade e sexo.
Por fim, um algoritmo distribuiu as crianças com PHDA por grupos usando apenas esses desvios cerebrais. Os sintomas não foram dados ao algoritmo. É isso que torna o resultado interessante: os grupos encontrados acabaram por diferir também nos sintomas.
Os três grupos
- Combinado grave, com desregulação emocional (142 crianças): as diferenças mais extensas, centradas nas ligações entre o córtex pré-frontal medial e o pálido, uma estrutura profunda do cérebro. Estas crianças tinham os níveis mais altos tanto de desatenção como de hiperatividade/impulsividade.
- Predominantemente hiperativo/impulsivo (177 crianças): diferenças concentradas num circuito que liga o córtex cingulado anterior ao pálido.
- Predominantemente desatento (127 crianças): diferenças mais localizadas, sobretudo no giro frontal superior.
A expressão «cerca do dobro das regiões afetadas», vista em algumas publicações, é uma aproximação razoável: o primeiro grupo mostrava 45 desvios significativos, contra 26 e 11 nos outros dois. Os padrões principais repetiram-se no grupo independente do Healthy Brain Network, o que é um verdadeiro ponto forte do estudo.
A parte emocional
Uma parte das crianças do centro de Chengdu, todas sem medicação no início, foi acompanhada todos os anos durante quatro anos com um questionário preenchido pelos pais. As dificuldades de regulação emocional diminuíram claramente no segundo e no terceiro grupos, mas mantiveram-se mais persistentes no primeiro. A diferença foi estatisticamente significativa, embora modesta. Os problemas de atenção e de comportamento não evoluíram de forma diferente entre os grupos. O primeiro grupo tinha também mais perturbações do humor (25 % contra cerca de 10 % e 5 %), mas essa diferença não foi estatisticamente significativa.
Isto importa porque a desregulação emocional, aquelas reações rápidas, intensas e difíceis de acalmar que muitas pessoas com PHDA descrevem, não faz parte dos critérios oficiais de diagnóstico. Outro estudo, mais pequeno, da Universidade Fordham publicado na Psychological Medicine (123 crianças dos 5 aos 9 anos), divulgado pelo PsyPost, também associou crises emocionais graves na PHDA a diferenças no córtex pré-frontal. Por vezes os dois estudos são misturados na internet: são trabalhos distintos que apontam numa direção semelhante.
Em que difere dos «tipos» do DSM
O DSM, o manual de diagnóstico usado pelos profissionais, já descreve três apresentações da PHDA: predominantemente desatenta, predominantemente hiperativa/impulsiva e combinada. Baseiam-se na contagem de sintomas, e a apresentação de uma pessoa muda muitas vezes ao longo da vida. Dois dos biótipos são muito parecidos com essas apresentações conhecidas, por isso o estudo não «descobriu» três novos tipos de PHDA. O que acrescenta são indícios de que as diferenças cerebrais em crianças com PHDA se organizam, pelo menos em parte, em padrões, e de que o perfil mais grave inclui uma componente emocional que o DSM deixa de fora.
O que o estudo não mostra
- Não é um exame de diagnóstico. Os desvios cerebrais sobrepunham-se entre crianças com e sem PHDA, e os grupos só surgem quando se analisam centenas de exames. A PHDA continua a ser um diagnóstico clínico, baseado na história e no comportamento da pessoa. Os autores sublinham que os seus biótipos não são novas categorias de diagnóstico.
- A resposta à medicação não foi testada. As publicações que dizem que o estudo indica que medicamento serve a cada tipo vão além dos dados. Ajustar melhor os tratamentos é uma esperança a longo prazo dos investigadores. A maioria dos participantes não estava livre de medicação, e os autores admitem que esta pode ter influenciado as imagens.
- Só crianças. Ainda não se sabe se os mesmos grupos existem em adultos.
- Provavelmente não são caixas separadas. Os próprios autores escrevem que os biótipos podem ser pontos ao longo de dimensões contínuas e não perturbações distintas.
- A química cerebral foi deduzida, não medida. As ligações à serotonina, à dopamina ou ao glutamato resultam da comparação dos mapas cerebrais com atlas de referência de outras pessoas, não de medições nestas crianças.
- Uma amostra selecionada. Foram excluídas crianças com muitas outras condições associadas, e todos os dados vêm dos Estados Unidos e da China, pelo que os grupos podem ser diferentes na prática clínica corrente.
O que isto significa para si
Não precisa de um exame ao cérebro para levar a sério aquilo que vive, e nenhum exame consegue hoje dizer-lhe de que «tipo» é. Se as dificuldades de atenção, a agitação ou a impulsividade o acompanham desde a infância e pesam no trabalho, nos estudos ou nas relações, um questionário validado é um primeiro passo útil. O questionário ASRS-v1.1 de rastreio da PHDA em adultos é gratuito, tem 18 perguntas e demora cerca de 10 minutos.
Se aquilo em que mais se reconhece é o lado emocional, por exemplo emoções que se inflamam depressa e demoram a acalmar, ou uma reação muito forte à crítica, pode também explorar o nosso teste gratuito de regulação emocional (DERS) e o nosso teste de sensibilidade à rejeição. Um teste de rastreio não é um diagnóstico, mas os seus resultados podem ajudá-lo a preparar uma conversa com um profissional.
Fonte: Pan N, Long Y, Qin K, Pope IZ, Chen Q, Zhu Z, Cao Y, Li L, Singh MK, McNamara RK, DelBello MP, Chen Y, Fornito A, Gong Q. «Mapping ADHD Heterogeneity and Biotypes by Topological Deviations in Morphometric Similarity Networks.» JAMA Psychiatry 2026;83(5):478-490 (publicado online a 25 de fevereiro de 2026). DOI 10.1001/jamapsychiatry.2026.0001. Estudo transversal multicêntrico com ressonância magnética em crianças e adolescentes dos cerca de 6 aos 18 anos: coorte de descoberta com 446 jovens com PHDA e 708 controlos de 6 centros nos Estados Unidos e na China; coorte de validação com 554 jovens com PHDA e 123 controlos (Healthy Brain Network); seguimento de 4 anos num subgrupo sem medicação no início.
