A psiquiatria tem operado há muito tempo sob um modelo de neurotransmissores: serotonina baixa causa depressão, dopamina elevada causa psicose. Uma meta-análise alemã de 2025 está a deslocar fundamentalmente esse quadro.
O estudo que muda tudo
Investigadores do Instituto Central de Saúde Mental de Mannheim (Alemanha) analisaram dados de neuroimagem, biomarcadores e tecido cerebral post-mortem de mais de 50.000 pacientes com 12 grandes perturbações psiquiátricas (Molecular Psychiatry, 2025). A sua conclusão: a neuroinflamação — ativação crónica de células microgliais e níveis elevados de citocinas pró-inflamatórias no cérebro — está presente em praticamente todas as doenças mentais estudadas.
As condições com esta assinatura incluem: depressão, perturbação bipolar, esquizofrenia, TEPT, TOC, anorexia nervosa e perturbação do espectro do autismo.
Não apenas um correlato — um motor causal
A micróglia cronicamente ativada liberta IL-1ß, IL-6 e TNF-a, que perturbam a transmissão sináptica, prejudicam a neurogénese, degradam a integridade da mielina — e, crucialmente, suprimem a via triptofano-quinurenina.
Em condições inflamatórias, o triptofano — a matéria-prima para a síntese de serotonina — é redirecionado para a produção de ácido quinolínico neurotóxico. Esta única mudança metabólica pode explicar tanto o défice de serotonina na depressão como a disfunção do glutamato na psicose — unificados por um desencadeador inflamatório comum.
O que inflama o cérebro
- Disbiose intestinal — alteração do microbioma que aumenta a carga sistémica de LPS
- Adversidade precoce — o trauma infantil sensibiliza a reatividade microglial durante décadas
- Privação crónica de sono — o sistema glinfático elimina resíduos neuroinflamatórios durante o sono
- Obesidade — o tecido adiposo é uma fonte importante de citocinas pró-inflamatórias
- Infeções virais — especialmente os herpesvírus (HSV-1, EBV, CMV)
- Poluição atmosférica — partículas finas atravessam a barreira hematoencefálica e ativam a micróglia diretamente
Implicações terapêuticas
- Minociclina — ensaios na depressão e esquizofrenia
- Celecoxib (inibidor de COX-2) — ensaios na depressão bipolar e resistente
- Ácidos gordos ómega-3 (EPA) — a intervenção mais acessível
- Modulação do microbioma — ensaios na depressão, autismo e TDAH
O que isto significa para as condições neurodivergentes
O TEA e o TDAH figuravam na meta-análise de Mannheim e mostraram assinaturas neuroinflamatórias. Isto não significa que o autismo ou o TDAH seja uma doença inflamatória no mesmo sentido que a depressão. Mas sugere que a carga inflamatória pode modular significativamente a gravidade dos sintomas.
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Referências adicionais: Dantzer R et al. (2008). Nature Reviews Neuroscience. | Raison CL & Miller AH. (2011). Current Psychiatry Reports.